Ricardo Neves completa um ano como “CEO Virtual” à frente da everis Brasil
sexta-feira, 26 Fevereiro, 2021

Depois de uma carreira de 32 anos como consultor e sócio de empresas como PwC e IBM, Ricardo Neves, aos 55 anos, assumiu pela primeira vez o cargo mais alto de uma organização ao se tornar CEO da everis Brasil, empresa de consultoria fundada na Espanha e parte do grupo japonês NTT DATA. Não bastasse o desafio de ser o primeiro brasileiro a ocupar o cargo em 20 anos na unidade brasileira, ele teve que enfrentar um outro desafio: assumir a posição – e todas as responsabilidades que acompanham – no meio de uma das maiores crises enfrentadas pela sociedade: a Covid-19.

Neves assumiu a presidência da everis em abril 2020, quando os mais de 2.500 colaboradores já trabalhavam de casa em home office, período em que todos viviam incertezas sobre questões relativas à vida pessoal e profissional. E, para tornar a situação mais complexa: sem conhecer pessoalmente praticamente nenhum dos sócios, diretores e demais gerentes do corpo executivo da empresa.

Ao longo da carreira, Neves se havia se preparado para o salto. Fez alguns dos programas executivos mais disputados do mundo, como o MBA Global Executivo, da Universidade Duke e um prestigioso programa de desenvolvimento executivo na Harvard Business School. Em nenhuma das aulas ele aprendeu a liderar uma empresa remotamente à frente de um lap top. “Assumi como CEO numa nova empresa já em quarentena desde casa, sem conhecer ninguém, tendo que fazer tudo por videoconferências”, diz. “Como seria estar à frente de uma grande operação de consultoria de TI, como a everis, sem acesso as instalações ou contato presencial com as equipes ou clientes?”

Um ano depois, a everis Brasil encerra o ano fiscal, pela primeira vez, com resultados positivos em todos os principais indicadores do dashboard de negócios, como rentabilidade, crescimento, vendas, satisfação de clientes, etc (dados não divulgados por país pela empresa). Num período de desemprego em massa, a consultoria contatou mais de 2 mil profissionais para sua operação no Brasil.

Como, em um ano como “CEO virtual”, ele conseguiu comandar a everis para um resultado tão positivo durante uma crise como essa?

Primeiro, liderando a partir dos valores – dele e da everis.

“A primeira linha que tive em mente foi: liderança na incerteza deve ser baseada em valores”, diz. “Então, pensei comigo: ‘tome as decisões baseadas nos valores da empresa alinhados com aqueles que sigo como executivo’.”

Numa empresa de serviços profissionais, um dos principais valores da everis é o respeito e valorização das pessoas. Seguindo essa linha, uma das primeiras ações foi inscrever a everis no movimento #naodemita. “Era importante passar claramente a mensagem de que as pessoas eram importantes para nós”, diz Neves.

A valorização das pessoas permeou boa parte das medidas de enfrentamento à crise. A adaptação ao home office foi facilitada graças a uma ajuda financeira dada a cada colaborador. O dinheiro recebido pode ser usado livremente por cada colaborador no que ele quisesse, seguindo assim um outro mantra de valor da empresa: a liberdade responsável.

Outra ação foi intensificar a comunicação. No caso de Neves, conversar com as pessoas era primordial pelo simples fato de que ele estava chegando à empresa e precisava conhecer os processos e a cultura. “Digo que, nos 100 primeiros dias, passei o equivalente a mais de vinte deles apenas conversando com as pessoas da companhia”, diz.

Nos primeiros meses, houve conversas individuais com os 60 principais executivos da everis. Esses encontros serviam para o estabelecimento de uma confiança mútua entre todos – inclusive dos sócios no novo presidente. “Um líder ganha a confiança da equipe quando escuta atenta e empaticamente a todos”, diz. “Quando abrimos o canal aos executivos da empresa, tomamos decisões baseadas no conhecimento deles e isso faz uma diferença grande no resultado final.”

No total houve inúmeros encontros virtuais de diversos formatos, como pizzadas, happy hours, cafés da manhã, além das reuniões mais formais com colaboradores e sócios. “Em cada encontro, fizemos a escuta ativa”, diz. Ao longo do ano, foram feitas duas grandes pesquisas sobre o trabalho remoto. “Na segunda pesquisa, abrimos um espaço para o colaborador escrever um comentário. Recebemos 1.600 comentários. Li cada um deles.”

Segundo Neves, a transparência foi fundamental num primeiro momento. “Tínhamos que passar as informações sobre a situação com otimismo, mas sem esconder as dificuldades e os desafios”, diz.

O momento em que os valores da everis de respeito e prioridade aos colaboradores foram testados na prática ocorreu quando critérios de saúde física e emocional do colaborador e de sua família foram testados na prática, diante de decisões individuais de continuidade ou retorno ao trabalho presencial em situações de necessidades de clientes. “Foram momentos tensos, mas, baseados em nossos valores, respeitamos a situação e vontade de cada colaborador, assim como tomamos todas as medidas para primeiro protegê-lo, sem deixar de atender nossos clientes”, diz.

Os bons resultados nos negócios mostram que a estratégia deu certo. “Após a divulgação dos resultados, eu brinquei e disse que não sabia se a everis Brasil tinha contratado alguém ‘competente’, mas que, pelo menos, alguém ‘com pé quente’”, brinca Neves.